sábado, 23 de abril de 2011

Escolhas do coração cp 17 (A Cabana)

"...Não há sofrimento na Terra que o Céu não possa curar..."
               
Chegaram de volta ao chalé em pouco tempo. Jesus e Sarayu esperavam perto da porta dos
fundos. Jesus aliviou Mack gentilmente do fardo e juntos foram à carpintaria onde ele estivera
trabalhando. Mack não entrava ali desde que chegara e ficou surpreso com a simplicidade do
lugar. A luz, atravessando grandes janelas, captava e refletia o pó de madeira que ainda pairava
no ar. As paredes e as bancadas, cobertas com todo tipo de ferramentas, estavam dispostas para
facilitar as atividades da carpintaria. Este era claramente o santuário de um mestre artesão.
À frente deles estava o trabalho que Jesus estivera fazendo, uma obra de arte para guardar os
restos de Missy. Ao examinar a caixa, Mack reconheceu imediatamente os relevos na madeira.
Detalhes da vida de Missy estavam nela esculpidos. Havia um relevo de Missy com seu gato,
Judas, e outro com Mack sentado numa cadeira lendo uma história para ela. Toda a família
aparecia em cenas trabalhadas na lateral e em cima: Nan e Missy fazendo bolinhos, a viagem ao
lago Wallowa com o teleférico subindo a montanha e até Missy colorindo o livro na mesa do
acampamento, com uma representação caprichada do broche de joa-ninha que o assassino
deixara. Havia também um relevo exato de Missy de pé sorrindo e olhando para a cachoeira,
ciente de que seu pai estava do outro lado. Entremeados com as cenas estavam as flores e
animais prediletos de Missy.
Mack abraçou Jesus e este lhe sussurrou ao ouvido:
- Foi Missy quem ajudou a escolher as cenas.
O abraço de Mack ficou mais forte e demorado.
- Temos o lugar perfeito preparado para o corpo dela - disse Sarayu,
que se aproximara. - Mackenzie, é no nosso jardim.
Com grande cuidado puseram os restos de Missy na caixa, colocando-a num leito de
grama e musgo macios, e depois encheram com as flores e especiarias do embrulho de
Sarayu. Fecharam a tampa, Jesus e Mack pegaram as extremidades e levaram o caixão
para fora, seguindo Sarayu até o local do pomar que Mack ajudara a limpar. Ali, entre
cerejeiras e pessegueiros, rodeado por orquídeas e lírios, fora aberto um buraco no lugar
onde Mack havia desenraizado os arbustos floridos na véspera. Papai esperava-os. Assim
que a caixa enfeitada foi posta gentilmente no chão, ele deu um grande abraço em Mack,
que retribuiu com a mesma intensidade.
Sarayu se adiantou e disse com um floreio e uma reverência:
- Sinto-me honrada em cantar a canção que Missy compôs exata
mente para esta ocasião.
E começou a cantar com uma voz que parecia vento de outono: um som de folhas
balançando e florestas adormecendo lentamente, tons da noite chegando e uma promessa
de novos dias. Era a cantiga insistente que ele ouvira Sarayu e Papai cantarolarem antes.
Agora Mack escutava as palavras de sua filha:
Respire em mim... fundo,
Para que eu respire... e viva.
E me abrace apertado para eu dormir
Suavemente segura por tudo que você dá.
Venha me beijar, vento, e tire meu fôlego Até que você e eu
sejamos um só, E dançaremos entre os túmulos Até que toda
a morte se vá.
E ninguém sabe que existimos Nos braços um do outro, A
não ser Aquele que soprou o hálito Que me esconde livre
do mal
Venha me beijar, vento, e tire meu fôlego Até que você e eu
sejamos um só, E dançaremos entre os túmulos Até que toda a
morte se vá.
Quando ela terminou houve silêncio, e depois Deus, todos os três, disseram simultaneamente:
- Amém.
Mack ecoou o amém, pegou uma das pás e, com a ajuda de Jesus, começou a encher o
buraco, cobrindo o caixão onde descansava o corpo de Missy.
Quando a tarefa terminou, Sarayu enfiou a mão dentro da roupa e pegou seu frasco pequeno e
frágil. Derramou algumas gotas da preciosa coleção na mão e começou a espalhar as lágrimas
de Mack no solo rico e preto sob o qual dormia o corpo de Missy. As gotas caíram como diamantes
e rubis, e onde pousavam brotavam flores instantaneamente, abrindo-se ao sol luminoso.
Então Sarayu parou um momento, olhando com intensidade uma pérola que repousava em sua
mão, uma lágrima especial, e depois deixou-a cair no centro do terreno. Imediatamente uma
pequena árvore rompeu a terra e começou a se desdobrar, jovem, luxuriante e espantosa,
crescendo e amadurecendo até se abrir em brotos e flores. Então Sarayu, no seu modo de brisa
sussurrante, virou-se e sorriu para Mack, que estivera olhando hipnotizado.
- É uma árvore da vida, Mack, crescendo no jardim do seu coração. Papai chegou perto e pôs
o braço em seu ombro.
- Missy é incrível, você sabe. Ela o ama muitíssimo.
- Sinto uma falta terrível dela... ainda dói demais.
- Eu sei, Mackenzie. Eu sei.

Era pouco mais de meio-dia quando os quatro retornaram do jardim e entraram de
novo no chalé. Não havia nada preparado na cozinha nem qualquer comida sobre a mesa
de jantar. Papai levou-os para a sala de estar, onde sobre a mesinha de centro havia uma
taça de vinho e um pão recém-assado. Sentaram-se todos, menos Papai, que permaneceu
de pé. Ele dirigiu suas palavras a Mack.
- Mackenzie, temos uma coisa para você refletir. Enquanto esteve
conosco, você foi curado e aprendeu muito.
- Acho que isso é um eufemismo - riu Mack.
Papai sorriu.
- Você sabe o quanto nós gostamos de você. Mas agora há uma esco
lha a ser feita. Você pode permanecer conosco e continuar a crescer e
aprender ou pode retornar à sua outra casa, a Nan, seus filhos e amigos.
De qualquer modo, prometo que sempre estarei com você.
Mack se recostou e pensou.
- E Missy? - perguntou.
- Bom, se você optar por ficar, irá vê-la esta tarde. Ela virá também. Mas, se escolher
deixar este lugar, também estará escolhendo deixar Missy para trás.
- Essa não é uma escolha fácil - Mack suspirou.
A sala ficou em silêncio durante vários minutos enquanto Papai dava a Mack espaço
para lutar com seus próprios pensamentos e desejos. Por fim, ele perguntou:
- O que Missy iria querer?
- Embora adorasse ficar com você hoje, ela vive onde não há impaciência. Ela não se
incomoda em esperar.
- Eu adoraria ficar com ela. - Mack sorriu diante do pensamento. - Mas seria muito
duro para Nan e meus outros filhos. Deixe-me perguntar uma coisa. O que eu faço lá em
casa é importante? Eu apenas trabalho e cuido de minha família e dos amigos...
Sarayu o interrompeu:
- Mack, se alguma coisa importa, tudo importa. Como você é impor tante, tudo que
faz é importante. Todas as vezes que você perdoa, o universo muda; cada vez que estende
a mão e toca um coração ou uma vida, o mundo se transforma; a cada gentileza e
serviço, visto ou não visto, meus propósitos são realizados e nada jamais será igual.
- Certo - disse Mack em tom decidido. - Então vou voltar. Não creio
que ninguém vá acreditar na minha história, mas, se eu voltar, sei que
posso fazer alguma diferença, mesmo que seja pequena. Há algumas
coisas que eu preciso... é... que quero fazer de qualquer modo. - Ele
parou e olhou para cada um. - Vocês sabem...
Todos riram.
- E realmente acredito que vocês nunca vão me deixar nem me abandonar, por isso
não estou com medo de voltar. Bom, talvez um pouquinho.
- É uma escolha muito boa - disse Papai. Em seguida deu um sorriso luminoso e
sentou-se ao lado dele.
Sarayu parou diante de Mack e falou:
- Mackenzie, agora que você vai voltar, tenho mais um presente para você levar.
- O que é? - perguntou Mack, curioso.
- É para Kate.
- Kate? - exclamou Mack, percebendo que ainda a levava como um fardo no coração. -
Por favor, diga.
- Kate acredita que é culpada pela morte de Missy.
Mack ficou pasmo. O que Sarayu acabava de dizer era óbvio demais. Fazia sentido que
Kate se culpasse. Ela havia erguido o remo que provocara a seqüência de acontecimentos,
permitindo que Missy fosse seqüestrada. Ele não podia acreditar que esse pensamento
nunca lhe tivesse passado pela cabeça. Num instante as palavras de Sarayu abriram uma
nova perspectiva na luta de Kate.
- Muito obrigado! - disse, com o coração cheio de gratidão. Agora tinha certeza de
que precisava voltar, nem que fosse somente por Kate. Sarayu concordou e sorriu. Por
fim Jesus se levantou, foi até uma das prateleiras e apanhou a latinha de Mack.
- Mack, achei que você iria querer...
Mack a pegou e a manteve nas mãos por um momento.
- Na verdade, acho que não vou precisar mais disso. Pode guardar para mim? Todos os
meus melhores tesouros estão escondidos em você, de qualquer modo. Quero que você
seja a minha vida.
 

- Eu sou - disse a clara e verdadeira voz da confirmação.

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